Julio

Julio

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Conheço um lugar...

... onde as pessoas, com a mesma naturalidade com que fazem xixi nas ruas, (como animais desacompanhados) jogam nessas mesmas ruas, todo tipo de lixo, tão asqueroso e repugnante lixo, quanto o que sai das caixas acústicas super-poderosas, instaladas nos fundos dos seus automóveis "Gol" ; um lugar onde as pessoas falam alto, quase gritando e não apenas ao celular, ou dentro dos ônibus e lugares públicos, até mesmo dentro dos elevadores; um lugar onde os ciclistas estão sempre na contra-mão (pensando em ver a cara da morte, talvez! ); onde, no transito, a faixa mais fluente é a da direita, desconhecendo o fato de que isso constitui uma infração de transito; onde é comum buzinar à porta dos prédios para chamar alguém, desconhecendo o fato de que isso também, se constitui como infração de transito; onde se cobra de quem estaciona na rua, como se fosse área privada; onde todo mundo cresce falano, iscreveno, dizeno,e achano tudo isso bunitiho ( sem o "n"); onde quem "rouba mas faz", vira ídolo e, pasmem, justamente por isso; onde cães com pedigree, saem com seus donos vira-latas, e deixam seus excrementos espalhados sob os pés coniventes de incautos pedestres; onde calçadas são pra estacionar,  já que os pedestres andam pelo meio das ruas, sentindo-se perigosamente acariciadas pelos retrovisores dos carros em movimento bem ao lado, ainda que as calçadas não tenham carros estacionados sobre elas, ou restos caninos sobre os quais pisar; (a continuar...) .
O pior mesmo é perceber que as pessoas desse lugar, "se acham", se veem como "o máximo" por tudo isso, e ainda exibem e alardeiam orgulho de pertencer a um lugar assim. O lugar é mesmo muito lindo! Pena que hajam nele, pessoas. Essas!

                                                      Julio Miranda

Sapatos novos.

         De onde será que vem o prazer de possuir coisas? Será que é irmão gêmeo da vaidade? Do desejo de ser invejado? Imagino, no tempo das cavernas, a "socialite-troglodita" exibindo pra sua vizinha de caverna, a “pele de Tigre-Dente de Sabre”novinha, sangrando ainda, ou a planta rupestre da sua nova caverna duplex com vista pro pântano. Já nesse tempo se ficava roxo de inveja? Não sei se daí, mas o fato é que ganhar, comprar, conquistar, enfim, ter, não importa por que meios, algo "novinho em folha" e sabê-lo só seu, está, sem dúvida, entre os maiores prazeres das culturas ocidentais no planetinha azul. 
          Lembro-me da inconfundível sensação de ganhar um sapato novo (ainda que fosse aquele modelo que comporia o uniforme escolar). O cheiro! hummm! Sapato novo tinha um cheirinho! Até as sandálias da famosa marca que "não tem cheiro, nem soltam as tiras" tinham cheiro. Era o céu! Seria.  Paradoxalmente começava ali a via crucis que era possuir algo novo. Primeiro dos dilemas: Pô-lo no chão. Como algo tão novinho, com aquela sola brilhante, com desenhinho e tudo, iria parar naquele chão sujo e áspero? Inevitável? É mesmo? Então tá. E com que roupa? Pois é, sapato novo tinha que ser usado com roupa nova! Não dava pra imaginá-lo acompanhado daquela já surrada calça do ano anterior ou do conjunto usado na última festinha do colégio. A única coisa velha permitida ao seu lado seria aquela "nesga" de "jeansbotado" na calça Lee, mas a calça tinha que ser nova! Não era eu quem chegava, era o sapato. Sem ele eu não existiria! E logo alguém ou alguma coisa começava a ameaçá-lo. Uma pedra no caminho nunca seria apenas uma pedra no caminho. Imaginar um chute numa pedra com aquela preciosidade? Melhor que acontecesse descalço. Dedos cicatrizam em dias. E aqueles amigos que insistiam em chegar perto demais para um simples cumprimento ou abraço? Pra que esse carinho todo? Vão acabar pisando no meu sapato. E ainda havia o risco de quererem fazer com o sapato o que faziam quando os cabelos eram cortados. Seria inimizade para trinta dias ou até que o sapato não fosse mais tão novo. Quando algum esbarrão, mesmo que o mais superficial e inócuo acontecia, ficava no local a sensação de que houvera ali uma amputação e a "dor" permaneceria até que houvesse uma ainda que mal disfarçada passada de mão, ou mesmo um esfregadinha do pé atingido na perna oposta da calça, na tentativa de amenizar tão inaceitável mácula.
    Não sei se ainda é assim (faz tanto tempo que não compro sapatos novos!), mas os sapatos (os tênis e até as sandálias) novos, faziam...Calos! Daqueles que formam bolhas! Hiper doloridos! E ainda assim eram tão amados que por um bom tempo eu guardava-lhes as caixas. Não faço a menor ideia do porquê, afinal, eles não voltariam pra dentro delas. Talvez fosse isso uma espécie de atestado, garantia, uma forma de manter-lhe assegurada a certeza de ser ele ainda novo. Falando nisso, atormentava-me à época e ainda o faz, uma dúvida: Até quando alguma coisa é nova? Qual o prazo de validade do "selo de novidade" para os objetos (e até para as pessoas) em nossas vidas? Seu carro zero, será zero ainda depois de ter rodado seus primeiros quilômetros? A namorada (o) será a (o) "nova (o)" até quando? E o emprego? E a vizinha? O que define algo como ainda novo, após ter sido ele usado pela primeira vez? Será o cheirinho? Carro novo, por exemplo, tem cheiro de novo. Irrecuperável, diga-se de passagem. Acho que nem as fábricas sabem que cheiro é aquele. Se soubessem não o revelariam. Perderia a graça um carro qualquer com aquele cheiro. Acabou o cheirinho, deixa de ser novo. Como os sapatos, quando lhes jogávamos fora, as caixas.
      Às vezes me parece mesmo que prazer e dor andam de mãos dadas. Sempre há um paralelo em tudo que se vive de um modo ou de outro. Como o primeiro pisão no sapato novo, o primeiro arranhão no carro novo, a primeira briga com o amor novo, etc. etc. até chegar-se ao antagonismo entre a vida e seus prazeres e a inevitável partida definitiva e sem destino conhecido. Talvez fosse mais simples e menos doloroso que todas as coisas novas viessem a nós com um arranhãozinho "de fábrica", alguém que as "amaciasse" antes, que pelo menos nos evitasse os "calos".
      Pensando bem, melhor não. Não teríamos o prazer de a usar a pele de Tigre-Dente de Sabre ainda sangrando ou de ser dos poucos privilegiados a ter a caverna virada pro pântano. Não teríamos a inveja alheia a alimentar sua carente e faminta irmã gêmea: A vaidade!
      Talvez nem fossemos mais trogloditas!

                                             Julio Miranda

Voltar a andar numa motocicleta!

Os carros e as outras motocicletas pareciam persegui-lo como famintos e vorazes predadores!
Com seus rugidos, num crescendo contínuo, sobrepondo-se até mesmo ao ar, que desapercebido, desistia de oferecer-lhe resistência. Aliás, esse deslocamento aéreo, deveria ser uma das primeiras sensações agradáveis a serem reconhecidas após dez anos sem subir numa moto.
Eram outros tempos e a necessidade se impunha tão ditatorial e intensamente, que já não sobrara espaço para o prazer em nenhuma atividade na exacerbada rotina daqueles dias. A retaguarda ameaçadora e as urgências à frente não deixavam entrever a vida que desfilava sua invisível exuberância em cada detalhe escondido nas luzes, num “strip tease” para cegos, cujas mãos houvessem sido decepadas. Perguntava-se, sem ouvir ou pronunciar tal interrogativa, o que mudara tanto nesses dez anos que o afastaram da necessidade de usar aquele veículo como meio de transporte? Seria a cidade, ou as pessoas que a faziam mover-se como se suas ruas fossem tentáculos de um gigante, incapaz de segurar as várias presas que tentavam desvencilhar-se de sua indesejada obrigação de aprisioná-las?
            Lembrava-se, sem saudades, das diferenças que esses poucos anos produziam imperceptivelmente em si mesmo, e em todos que conhecera “naquele tempo”, e com os quais ainda mantinha contato. Percebia em todos, (e supunha fruto, muito mais do desinteresse pela auto preservação física, advindo da necessidade de seguir a ditadura do enriquecimento, e da almejada subida ao "pódium" da disputa social, ou ainda do conformismo produzido pelo abandono consensual, esse que ocorre inexplicavelmente, ao menos a seu ver, de todos os aspectos que seriam supostamente "mantenedores" da juventude do corpo e do "espírito", tais como a busca por definir o que se quer ter, e quem se quer ser na vida, do que pela própria ação do tempo), um comum e acelerado envelhecimento não apenas físico, mas, e sobretudo, de atitude, de sentir-se vivo, sentir-se apto, sentir-se ainda jovem , não vestindo-se, falando  ou comportando-se de modo caricato “como jovem”, mas, e sobretudo, “querendo”, como querem os jovens. Sentindo-se, desejando, desejando aprender e percebendo quanto se cresce quando se aprende, e quanto isso nos mantém pequenos que é a essência do crescimento em si.
             Por que voltar a andar numa motocicleta, e adotá-la como meio de transporte diário, parecia a todos tão louco ou suicida assim nos dias de hoje? Claro, haviam mudanças significativas no comportamento das cidades, nos seus números auto multiplicáveis, nos seus reduzidos espaços que nunca serão suficientes para o quanto se acha que se precisa crescer. Mudanças na falta de tolerância, respeito e educação, na sua pressa em direção ao próximo stress, etc. Esses fatos subvertem a razão de existir de um veículo como aquele, provavelmente criado não apenas para locomover ou transportar o homem e agora servia para dar-lhe mais mobilidade e aumentar sua pressa. Pressa essa, que anda de mãos dadas com o risco, embora pressa, velocidade e risco, não sejam a mesma coisa. Nem velocidade e liberdade, ainda que, às vezes, uma seja convidada da outra.
             Naquele dia, a sensação mais forte, no entanto, mesmo acompanhada de uma imensa insegurança de primeiros metros, foi de prazer intenso, como uma volta a uma juventude que só a aventura e "o bom risco" são capazes de proporcionar. Como se naquele desafio e justamente por sê-lo, estivesse a fonte da juventude, não importando nenhuma cronologia. Isso não é para ser contado, é para ser sentido, com todos os sentidos. Ouvir, ver e tocar todos os riscos que é estar vivo e fazer parte de um mundo que precisa redescobrir a juventude. Fazer as coisas por fazer. Ou, se por necessidade, associar a isso o máximo de prazer. Moto é isso, prazer e transporte, ou transporte e prazer ou mais ainda transporte AO prazer.
                             Julio Miranda